Ao passo que a população do planeta cresce em direção aos oito bilhões de habitantes, e a natureza começa a manifestar seu esgotamento, sinalizando mudanças climáticas e escassez de insumos básicos a manutenção da vida. Cabe refletir sobre as mudanças pelas quais passamos nos últimos séculos, desde que Adam Smith escreveu a Riqueza das Nações, em 1776, e esboçou as bases do sistema econômico que hoje denominamos Capitalismo. Sistema este que pretendia elevar substancialmente a produtividade econômica, através do uso eficaz dos três componentes básicos da produção econômica, o capital (recursos financeiros), a terra (recursos naturais), e o trabalho (recursos humanos), e pretendia dispersar seus ganhos entre os atores do sistema. Na prática não foi o que aconteceu, o Capitalismo a e Revolução Industrial, criaram uma classe de abastados, industriais, enquanto abandonava a própria sorte, milhões de trabalhadores mal pagos, e vivendo no limite da subsistência. Realidade que ainda não foi totalmente transformada em pleno século XXI, mesmo com todo o processo de organização sindical e todas as leis de proteção ao trabalhador. Quanto à natureza, só recentemente passou a fazer parte dos debates capitalistas, passando a ser vista como elemento fundamental à manutenção do sistema.
Desta forma, o tradicional objetivo dos gestores públicos, ou seja, dos responsáveis pelas políticas econômicas dos países, que dantes só precisavam gerir os conflitos sociais, gerados pela luta entre a classe de trabalhadores e os capitalistas, agora necessitam incorporar em suas estratégias de gestão, a gestão do capital natural, como forma de garantir não só a criação de riquezas para a nação, mas como meio de sustentar esta riqueza para as gerações futuras.
Assim cabe refletir sobre momento de grande transformação, pelo qual passa a região Norte Fluminense, em especial a faixa litorânea compreendida pelos Municípios de São João Barra, Campos dos Goytacazes, e Quissamã, tendo em vista os vultosos empreendimentos que ora se instalam nesta região. Em São João da Barra, encontra-se em processo de implementação a mega obra do Porto do Açu, que terá como uma das suas atividades principais, o escoamento da produção de minério de ferro, trazida até este por um minérioduto, em Campos, na Praia do Farol de São Thomé, será construídos um aeroporto, e Quissamã receberá em suas terras a instalação de um estaleiro e porto de apoio off-shore, sendo este empreendimento localizado na fronteira com Campos dos Goytacazes, mais precisamente às margens do Canal da Flechas, e a uma pequena distância do Manguezal da Ilha da Carapeba.
Neste ínterim muitos declaram que o desenvolvimento tão esperado, e tão desejado, enfim nos alcançou, pois empreendimentos desta estirpe são capazes de alavancar toda uma cadeia produtiva, e portando aptos a promover um grande boom de desenvolvimentista, e uma verdadeira metamorfose nas estruturas econômicas, sociais e ambientais da região.
Neste contexto temporal, cabe-nos refletir sobre as estratégias a serem impetradas como medidas mitigadoras dos impactos negativos, advindos deste processo de transformação pelo qual passaremos inevitavelmente.
Partindo destas premissas, torna-se de suma importância da criação de uma UC (Unidade de Conservação) no manguezal da Ilha da Carapeba, tendo em vista a sua localização e proximidade com empreendimentos de elevado impacto ambiental.
Cabe também citar que a área do manguezal em epigrafe, trata-se de um dos últimos remanescentes deste ecossistema no município, sendo considerada como área de preservação natural, na proposta de macrozoneamento do Plano Diretor do Município de Campos dos Goytacazes.
Além do supra exporto, os manguezais são ecossistemas de grande relevância ecológica, tais como:
• Proteção da linha da costa – a flora dos manguezais atua como barreira contra a erosão promovida pelas marés e ondas, bem como pelos fortes ventos costeiros;
• Retenção de sedimentos carreados pelos rios – tendo em vista a reduzida energia hidrodinâmica das zonas de manguezal, os grânulos precipitam-se se agregando ao substrato orgânico do manguezal, possibilitando assim a propagação e sustentação da flora local;
• Ação depuradora – este ecossistema atua como uma espécie de depurador, filtro biológico, capaz de reter partículas tóxicas (metais pesados) através do trabalho dos micro-organismos existentes em seu leito lodoso;
• Área de concentração de nutrientes – devido a sua localização em zonas de estuário, recebendo águas dos rios e do mar, ricas em nutrientes, este ecossistema é altamente produtivo, sendo um grande contribuinte para a economia natural, tanto dos rios quantos dos mares;
• Renovação da biomassa costeira – tendo em vista suas características, tais como águas mansas, lamina d’água tênue, e rica em nutrientes. Possui as condições ideais para a reprodução e desenvolvimento de diversas espécies, sendo visto como o verdadeiro berçário da fauna aquática;
• Área de alimentação, abrigo, nidificação e repouso de aves – também serve com área de repouso e nidificação de aves, endêmicas e migratórias, contribuindo assim para biodiversidade;
• Insumos para indústria química e farmacêutica – devido à elevada quantidade de matéria orgânica e sedimentos inorgânicos, aliados a inúmeros processos biogeoquímicos promovidos pela rica fauna microbiana dos manguezais, estes ecossistemas também são fornecedores de insumos especiais para a indústria químico-farmacêutica.
Roger Coutinho

Nenhum comentário:
Postar um comentário