O porco e a galinha resolveram fazer uma farofa, e convidaram seus amigos para prová-la. Para isso, eles precisariam se esforçar muito para que a farofa ficasse saborosa e ao gosto de todos. Sabiam que seus amigos eram muitos, e também exigentes. Para fazê-la, ambos tinham que combinar os ingredientes que seriam usados para que a farofa fosse pronta. Tinha que ficar saborosa. Então combinaram de usar farinha, óleo, sal, ovos e bacon. Também combinaram o local, o dia e a hora em que se encontrariam para fazer a farofa.
Na saída a galinha disse ao porco que cada um tinha que dar o melhor de si; para que todos os amigos ficassem satisfeitos. E que a farofa fosse inesquecível na vida de cada um.

Chegado o dia de por a mão na massa, o porco perguntou à galinha:
_Então, o que você trouxe para fazer a farofa? Muito prevenida a galinha respondeu:
_Eu trouxe o óleo, a farinha e os ovos_que eu mesma porei.
E vendo a galinha que o porco chegara sem trazer nada do que haviam combinado, disse-lhe:
_Vejo que você não trouxe nada. Contudo o porco retrucou.
_Impressão sua (...). E continuou dizendo:
_Apesar de você ter trazido quase tudo, e ainda pôr você mesma os ovos a serem usados na mistura, resolvi seguir seu exemplo e dar o melhor de mim. Ou seja, será eu quem dará aquilo que fará a farofa ficar perfeita.
Desconfiada e sem entender nada, a galinha logo perguntou:
_O que de tão importante você vai dar? E o porco respondeu-lhe imediatamente:
_Minha vida.
_Sua vida? Como assim? Bravejou a galinha. E o porco por sua vez explicou-lhe pausadamente:
_Já que você mesma porá os ovos, estou disposto a morrer para que todos saboreiem a farofa com o meu bacon. Por isso darei minha vida para que tudo saia perfeito; e que nossa farofa seja a melhor que eles provaram em suas vidas.
A galinha, outrora preocupada, e pensando que estava mais comprometida com o evento, ficou envergonhada ao ver que o porco dera a mais importante contribuição, sacrificando-se em prol de todos.
Você deve estar achando esta estória, que é fictícia, bastante esdrúxula. Não? Mas apesar de ela não ser real, podemos tirar de seu contexto uma bela lição.
No mundo atual, em que o tema conservacionista está em voga, em contraponto do desenvolvimento econômico - ou vice-versa (...), incluindo a força do capital, sobrestando as regras básicas do interesse público e manipulando o sistema em favor de si, é importante falar daqueles que dão a própria carne - deixando de lado suas necessidades e interesses - em prol de uma coletividade. Estes ícones muitas vezes relegaram-se ao segundo plano para, em raras vezes, cantar vitórias sobre os interesses dominantes. Foram apaixonados pela causa.
Ninguém abre mão de seu conforto. Isto é certo. Ninguém se sacrifica para chamar atenção dos outros para algo grave que compromete nossa sobrevivência. Sacrifica? Seria porque ninguém se importa com aquilo que não acontece consigo mesmo? Nossa espécie não é tão altruísta quanto pensamos... É verdade! Ou seria mesmo instinto de sobrevivência? Acontece que hoje em dia os seres humanos só se preocupam em estabilidade financeira e no futuro incerto desconstruído pelas incertezas de uma sociedade altamente insustentável e desigual. Não há parcimônia com as coisas que consomem. Não sabem de onde vem e nem para onde vão; ou, como são produzidas e o custo para a natureza. Somente alguns se importam com a romântica querela ambientalista que se fundou no mundo há décadas.
Chico Mendes e Dorothy Stang são raros exemplos de cidadãos que deram a vida pela natureza e àqueles que dela subtraem de forma rústica, a matéria-prima de seu sustento. De maneira antagônica, os grupos ambientalistas Greenpeace, WWF, Renctas, entre tantos outros que podemos enumerar, também prestam um grande serviço à sociedade quando bravatam de forma inexorável pela preservação da natureza e pela qualidade de vida da população mundial. Defendem heroicamente suas idéias, mas infelizmente não dão suas vidas por elas. E isso é paradoxal.
Não estou pedindo para ninguém morrer pelos outros. Contudo, vejo que o entusiasmo dos grupos ambientalistas das décadas de 70, 80 e 90 fazia com que a causa ganhasse expressão e notoriedade. Era diferente. Tinha gana, vontade... Ninguém morria, mas sei que muitos estavam prontos para isso se fosse necessário. Pena que o entusiasmo acabou, dando lugar a pseudolutas e eco-eruditos numa época em que a vaidade e os muitos dólares conduzem a cantata.
Não é legal nos dias atuais chamar alguém de "porco" ou "galinha". Conota mal, eu sei (...). Podemos até responder por isso. Mas, no contexto da história, podemos sim apontar muitos "porcos" e "galinhas" por aí. Não acha? Convido-os à reflexão.
Na verdade, às vezes acho que todos somos "galinhas". "Porcos" são raros!
Colaborador voluntário:
Carlos Henrique Precioso
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